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Gelada, sim. Estúpida, não! (Parte II)

segunda-feira, 06 de outubro de 2008

Você conhece o Michael Jackson? Não, não aquele Michael Jackson. O britânico Michael Jakowitz (cujo pai, imigrante lituano, mudou o nome da família para Jackson após estabelecer-se em Yorkshire) ficou mundialmente conhecido em 1977, quando lançou o livro The World Guide to Beer, até hoje uma referência aos cervejeiros do mundo todo. Apelidado de The Beer Hunter (ou “O Caçador de Cervejas”, em virtude do programa homônimo que apresentou durante anos no Discovery Channel), foi considerado o “papa” da cerveja até falecer em agosto de 2007, vítima do Mal de Parkinson – cá entre nós, uma doença não relacionada ao consumo moderado de cerveja…

O Caçador de Cervejas entra nessa história a reboque do meu último post sobre a questão da temperatura correta para beber cerveja. É que Jackson, do alto de sua olímpica sabedoria cervejeira, jamais bebia a sua breja “estupidamente gelada”, hábito que erroneamente se difundiu por aqui. Ao contrário, propunha uma espécie de “escala” de quatro níveis de temperaturas para bem servir e apreciar uma cerveja, estritamente de acordo com o estilo de cada uma. Tudo para se aproveitar adequadamente todos os aromas, sabores e texturas que cada breja pode oferecer, potencializando o prazer do degustador. Vamos a ela:

1. Muito gelada (de 0º a 4° C): Cervejas no estilo Pale Lager, cervejas sem álcool e quaisquer cervejas que tenham como objetivo apenas refrescar, e não de serem degustadas.

2. Bem gelada (de 5º a 7° C): Nessa escala já encontramos cervejas aptas à atividade degustativa. É ideal para brejas do estilo Pilsner ou Weizen (trigo), dentre outras. Nessas temperaturas, as pedidas são as Baden Baden Cristal, Weiss, Golden e Bock.

3. Gelada (de 8º a 12° C): Ideal para cervejas nos estilos Lager (escuras), Pale Ale, Amber Ale, Weiss (escuras), Porter, Helles, Vienna, Tripel e outros. Nessas temperaturas, experimente as Baden Baden Red Ale, Stout, Celebration Inverno e Tripel, sem medo de ser feliz.

4. Temperatura de adega (de 13º a 15° C): Somente para as brejas nos estilos Ale Quadrupel, Strong Ale (escuras), Stout e a maioria das cervejas especiais belgas.

Note que as cervejas mais claras e suaves normalmente são servidas mais geladas, enquanto as mais escuras e mais fortes devem ser servidas em temperaturas maiores. É claro que não se trata de uma regra pétrea. Sequer as escalas de temperatura de Jackson são obrigatórias quando se serve uma breja. Siga-as, ou não.

Todavia, é inegável que as dicas do Beer Hunter são boas orientações, vindas de um cara que realmente entendia do que falava. Tudo depende do gosto de quem bebe, do local de consumo e da proposta do momento. Proibido, de verdade, é deixar de apreciar a boa cerveja.

Até a próxima e boas degustações!

Gelada, sim. Estúpida, não!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Final de uma tarde quente, a garganta seca. Acomodo-me na mesa da choperia e imploro o precioso líquido ao garçom. E rápido, por favor. Em segundos, o copo materializa-se em minha frente. Gelado. Mais que gelado. Absurdamente gelado. Levo aos lábios e percebo que a espuma também está praticamente congelada, parecendo milk shake. Sinto até mesmo os cristais de gelo a entrar-me pela garganta enquanto sirvo o primeiro gole. Sim, matei a minha sede. Mas não senti gosto nenhum. Uma água mineral com gás naquela temperatura enregelante produziria o mesmo efeito, com a vantagem de ser mais barata.

No Brasil, criou-se o mito de que cerveja, para ser bem servida, deve estar “estupidamente gelada”, ao ponto de congelamento. Muitos donos de bares colocam freezers verticais de diversas marcas à vista dos clientes, com termômetros eletrônicos nos quais se anuncia que lá dentro a breja estaria a três, quatro graus negativos (embora se saiba cientificamente que a cerveja vira pedra a -2,5 graus Celsius).

É claro que, nas areias escaldantes das praias brasileiras, num calor de 40 graus, é difícil imaginar beber algo que não seja bem gelado. Todavia, é bom ter em mente (e olha a ciência aí de novo!) que, abaixo de 2 graus Celsius, a temperatura da cerveja é tão fria que amortece as papilas gustativas, as quais são células epiteliais na língua responsáveis pelo sentido do sabor. Portanto, ao beber uma cerveja gelada demais, você pode até se refrescar, mas não sentirá gosto algum. Sem falar que as temperaturas muito baixas desfavorecem a formação da espuma, ou o “colarinho”, do qual já falamos neste post. Como disse um Mestre-Cervejeiro amigo meu, “cerveja estupidamente gelada é coisa de estúpidos”…

Nós, do BREJAS, preferimos consumir um chope (ou cervejas do estilo Pilsen/Pale Lager) em temperaturas que vão de 2 a 5 graus Celsius. Mas a temperatura da cerveja que se vai consumir é determinada por diversos fatores, sobretudo o estilo de cada uma. Pra não me alongar demais, no próximo post falarei mais sobre as temperaturas aliadas a cada estilo, a fim de que você possa absorver todos os aromas e sabores que o mundo cervejeiro tem a lhe oferecer.

Até a próxima e boas degustações!